Sunday, April 27, 2008

A TESTEMUNHA



-Mestre, a Testemunha existe?
-Não, discípulo, a Testemunha não existe.
-Mestre, como pode ser? Não disseste que por ela tudo é?
-Sim, discípulo, eu o disse.
-Mestre, estou perplexo. Ela existe ou não existe?
-Discípulo, a Testemunha não responde a perguntas nem se reduz a
dualidades.
-Como alcançar essa suprema realidade?
-Discípulo, qual suprema realidade?
-Porque me torturais assim? Eu não compreendo.
-Pode ser vista?
-Mestre, eu não a vejo.
-Pode ser tocada?
-Mestre, eu não a toco.
-Ela existe.
-Mestre, já não sei se ela existe.
-Discípulo, quem é que não sabe?
-Eu, Mestre.
-Quem és tu?
-Este humilde homem, titubeante na incerteza, cego, surdo, mudo...
-E em que livro leste isso?
-Mestre, li-o e também o sinto. Acredito.
-Discípulo, o que querias tu saber?
-Mestre, já não sei bem. Não consigo pô-lo em palavras.
-Discípulo, as palavras não são agora necessárias. Sentes a interrogação fundamental?
-Posso dizer-vos que sim , Mestre? Seria ainda meia -verdade...
-Discípulo, a grande interrogação tem resposta?
-Mestre, vejo agora a grande inutilidade desta movimentação.
-Discípulo, o que é a Testemunha?
-Mestre, a resposta para essa pergunta é impossível.
-O que resta, discípulo?
-A própria Testemunha. Antes de tudo começar, depois do fim de tudo, além , acima e abaixo de tudo; móvel , imóvel, despojada. Além
de tudo isto, paradoxal e silenciosa. Busquei-a muito tempo mas
somente poderei encontrá-la quando cessar a busca, o meio da busca
e a necessidade da busca.
-Discípulo, este diálogo foi útil?
-Sim , Mestre, foi.
-Discípulo, o que concluíste?
-Que, acerca de determinados assuntos, é inútil conversar...


Uma conversa entre Mestre Trasgo e Azembor

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