
NATAL
Não sou saudosista mas lembro-me muito dos Natais da minha infância.
Primeiro que um ano passasse parecia uma eternidade e depois quando
chegava esta quadra havia qualquer de mágico que se perdeu.
O brinquedo, ou a roupa, ou fosse o que fosse que se recebesse nessa
altura tinha outro sabor, porque a vida não permetia, mesmo aos mais
remediados comprarem tudo o que se desejava ou pedia. Portanto o
Menino Jesus era a esperança dessa realização, porque o Pai Natal ainda
não era muito famoso nesses tempos.
Se bem me lembro, como dizia Vitorino Nemésio, era apenas em Dezembro
que a baixa lisboeta se enfeitava com o apoio dos comerciantes (esse apoio
penso que ainda hoje é dado), e nas casas fazia-se o presépio ou a árvore
de Natal e salvo raro excpções se faziam as duas coisas.
A vida não era fácil, não havia muitas possibilidades de endividamento
porque o apelo ao consumo era muito mais restrito, os bancos não faziam
empréstimos nem para as palhinhas do Menino Jesus, cartões de crédito
não se sabia o que era, e só o décimo terceiro mês podia ajudar a fazer a
festa... e com muito sacrifício. Esta era também a época do ano em que se
estreava qualquer coisa (as outras duas , era nos anos e na Páscoa) e
lembro muitíssimo bem que só fui mais pedinchona no que diz respeito aos
brinquedos quando apareceu o tão famoso bébé chorão que de facto lá o
encontrei na manhã do dia 25, que era quando se abria as prendas. Mas
muitas cartas me custou nesse ano, pois achava que se escrevesse só uma
podia não chegar ao destino, ou não fosse estar o Jesus muito ocupado.
A PAZ era uma palavra com muito mais peso, apesar das guerras que também
já as havia (é bom não esquecer uma que se desenrolava no chamado Ultramar)
e aí não sei se faziam tréguas durante o tempo natalício, mas outras havia em
que pelo menos um dia se respeitava as crenças e tradições de cada um.
Hoje andamos todos vergados ao peso do consumismo, das muitas luzes que
proliferam por toda a cidade, das grandes árvores de natal que consomem
electricidade até dizer chega, para depois nos lavarem a cara que consumimos
muito... e apesar de todas as boas vontades que são bandeira nesta época elas
continuam a ser poucas para abranger cada vez mais a probreza e a solidão.
Os homens decidiram que Cristo nasceu em Dezembro, assim seja!
O importante é que de facto Ele existiu comemoremos então o Seu nascimento.
Que sejamos nós, ao menos uma vez a nada lhe pedir, mas sim a ofertar, não
ouro , incenso e mirra, mas a verdadeira vontade de fazer da Paz uma realidade,
o banir da fome não uma utopia e, não transformar o amor numa banalidade.
FELIZ NATAL!