Um dia alguém escreveu que a dor desaparecerá da face da Terra quando todos sentirem a dor de cada um e cada um sentir a dor de todos.
Parece que de ano para ano a dor se vai apoderando das nossas vidas em
todas as suas cambiantes. Avançamos em tecnologias e descuramos o apuramento da nossa sensibilidade e enquanto assim fôr continuaremos
a ser metralhados e atingidos por subespécies humanas.
É um facto que o mundo mudou a partir do 11 de setembro. O terrorismo
não se fica só por bombas, ataques suicídas, por terras minadas.
Existe um outro tipo de terrorismo mais subtil, mas não menos penoso
que últimamente quer se queira ou não nos entra casa adentro através
dos média.
O caso de Madeleine grita apenas mais alto e com maior visibilidade aquilo que outros pais e mães já passaram e não se recompuseram.
O caso de Madeleine tem ainda o "condão" de pôr um pouco mais a nú a
fragilidade e a impotência humana, de questionar a ciência, de questionar as leis, de demonstrar as diversas formas de tratamento para
casos idênticos,quer em Portugal ou fora dele, deu-nos a dimensão da
organização e do lucro das redes pedófilas ou pode novamente nos mostrar os desvios comportamentais de um indivíduo que todos nós por
princípio achamos que tem um comportamento normal, seja lá o significado que se lhe atribua.
Mas o caso de Madeleine vém dizer-nos muito mais, que isto não pode ser a excepção, mas sim a regra para qualquer criança tirada abruptamente do seu meio familiar.
Muito se tem dito e escrito sobre a actuação da polícia portuguesa.
Pessoalmente não penso que devam ser eles os acusados. É bom não
esquecer que aqueles homens e mulheres também cumprem leis e que
eles se veêm muitos vezes confrontados com um manual de teorias que
alguém sentado num gabinete escreveu, sem nunca se ter visto confrontado que as exigências no terreno exigem. Pelo menos que seja
alterada as não sei quantas horas para que possam actuar, que tenham
acesso a mandados de busca rápidos, resumindo que tenham aquilo que
necessitam para poder agir. Meios rápidos e eficazes porque por si só a
polícia milagres não faz.
No que toca à imprensa portuguesa, gostaria que ela fosse mais aguerrida, mais forte, mais isenta, mais livre. Não desbocada. Porque
gente com esse predicado é o que por aí não falta. A imprensa inglesa tem defeitos? Tem! A imprensa americana tem defeitos? Tem!
Mas também têm poder para fazer investigações, têm liberdade de expressão, têm liberdade de derrubar presidentes etc. etc..
Se a nossa imprensa quando do desaparecimento de crianças portuguesas também se empenhasse assim com as televisões se calhar
muitos pais portugueses saberiam um pouco mais sobre o desaparecimento dos seus filhos. Quem diz nestes assuntos, diz outros.
E basta ter estado atento ao caso Esmeralda, em que uma estação de
televisão se empenhou em contabilizar os dias da prisão daquele homem.
Basta ver como a sociedade civil se mobilizou em torno deste caso. Um caso de amor e não de sequestro, como os tribunais tanto se empenham
em nos fazer crer. Como será que que classificam agora o caso Madeleine?
A dor faz parte do nosso caminho, da nossa aprendizagem, do nosso percurso de vida. Ela existe e existe nas mais variadas formas.
Transforma-la em amor e esperança é uma forma de arranjar forças para nos ir-mos mantendo vivos e confiantes ainda no próximo.
Que a particularidade que existe nos olhos de Madeleine mas que eu
chamo " a lágrima que nunca caiu", represente para ela e seus pais,
assim como para todas as outras desaparecidas e seus pais, a lágrima de
um feliz reencontro demore o tempo que demorar.
Saturday, May 26, 2007
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